Malba Tahan e a hanseníase: quando educar foi um ato de coragem e humanidade

No Dia Mundial da Hanseníase, celebrado no último domingo de janeiro, recordar a trajetória de Júlio César de Mello e Souza, o Malba Tahan, é também reconhecer um capítulo pouco conhecido de sua vida: o compromisso ativo com a desmistificação da hanseníase e a defesa da dignidade humana.

Em 2026, a data será celebrada em 25 de janeiro e, no Brasil, coincide com o Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase.

Mais do que escritor e professor de matemática, Malba Tahan foi um educador social, que entendeu cedo que ensinar também significa romper preconceitos, formar consciências e agir com solidariedade.

Um educador diante do preconceito

Durante grande parte do século XX, a hanseníase foi cercada por medo, desinformação e exclusão. Os portadores da doença, então chamados de “leprosos”, eram isolados em leprosários e afastados da convivência social. Nesse contexto, o silêncio era a regra, e o estigma, uma sentença.

Entretanto, Malba Tahan escolheu um caminho diferente.

Inspirado pelo exemplo de São Damião de Molokai, que dedicou sua vida aos hansenianos, Júlio César assumiu publicamente a causa do reajustamento social dos portadores do Mal de Hansen. A partir do final da década de 1930, ele passou a visitar leprosários em todo o Brasil e também em Portugal, promovendo palestras, escrevendo artigos e dialogando diretamente com internos e profissionais da saúde.

Assim, sua atuação extrapolou os limites da sala de aula e da literatura, transformando-se em um verdadeiro projeto educativo de alcance nacional.

A revista Damião: uma mensagem de esperança

Folha da revista Damião de número 26 de 1956. Uma folha amarelada com o título Damião ao topo em grandes letras pretas e a manchete onde se lê "Síntese do Programa da luta contra o mal de Hansen

Revista Damião – nº 26 out/dez de 1956

Em dezembro de 1951, Malba Tahan criou a revista Damião, uma publicação de âmbito nacional dedicada exclusivamente à causa dos hansenianos. Distribuída gratuitamente a todos os leprosários do Brasil e de Portugal, a revista cumpria um papel essencial: informar, acolher e devolver esperança.

Mais do que um periódico, a Damião foi um instrumento pedagógico e humano. Por meio de textos acessíveis, relatos, reflexões e mensagens de incentivo, Malba Tahan combatia a desinformação e reforçava a ideia de que a hanseníase não anulava a dignidade, o valor ou o futuro de ninguém.

Desse modo, a palavra escrita tornou-se um meio de cuidado e reconstrução social.

Literatura a serviço da solidariedade

O engajamento de Malba Tahan com a hanseníase também se manifestou em sua produção literária. Três obras se destacam por abordar diretamente o tema:

Capa do livro Ainda Não, Doutor com desenhos ao fundo em listras verdes e azuis e por cima desenhos feitos de caneta preta de galhos entrelaçados onde se apoiam corações 4 de papel pintados de verde

Livro Ainda não, Doutor! – 1ª edição: 1967

Capa do livro Livro Romance do filho pródigo. Um homem cabisbaixo está sobre um chão de pedras à frente de um campo de trigo verde e amarelo. Ele veste uma camisa vermelha rasgada nas bordas e nos cotovelos e uma veste uma calça preta curta, está descalço e carrega uma bengala comprida com a ponta curva.

Livro Romance do filho pródigo – 1ª edição 1967

Ilustração de capa do livro O Mistério do Mackenzista, de Malba Tahan, mostrando um grande rosto masculino em primeiro plano e, ao fundo, um homem e uma mulher em atitude tensa, com cores fortes e clima de suspense policial.

Livro O mistério do Mackenzista – 1ª edição: 1970

Esses livros não apenas esclarecem aspectos da doença, mas, sobretudo, humanizam seus personagens, rompendo com estereótipos e convidando o leitor à empatia. Assim, a literatura cumpre sua função mais nobre: formar valores.

Conforme analisa o artigo acadêmico A Prática Educativa de Júlio César de Mello e Souza – Malba Tahan: um olhar a partir da concepção de Interdisciplinaridade, já divulgado neste site, a solidariedade foi um dos valores éticos mais evidentes da personalidade de Júlio César. Sua prática educativa integrava conhecimento, ética, cultura e responsabilidade social.

Educação, ética e compromisso social

Ao falar de hanseníase, Malba Tahan não se colocava como médico, mas como educador. Para ele, educar significava esclarecer, dialogar e incluir. Por isso, sua atuação nessa causa deve ser compreendida como parte coerente de sua visão pedagógica mais ampla, a mesma que defendia um ensino humano, significativo e transformador.

Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, o próprio Júlio César relata o chamado que sentiu para essa missão e os frutos colhidos ao longo dos anos. Sua experiência demonstra que a educação, quando guiada por valores éticos, é capaz de enfrentar até mesmo os preconceitos mais enraizados.

Um legado que permanece atual

No Dia Internacional da Hanseníase, lembrar o envolvimento de Malba Tahan com essa causa é reafirmar que educação e humanidade caminham juntas. Seu exemplo continua atual, especialmente em tempos em que o preconceito ainda se manifesta de novas formas.

Ao transformar a palavra em acolhimento e o conhecimento em ação solidária, Malba Tahan deixou um legado que ultrapassa a matemática e a literatura. Ele nos ensinou que ensinar é, antes de tudo, um ato de responsabilidade com o outro.

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