
Em 25 de abril de 1973, o escritor e educador Malba Tahan concedeu ao Museu da Imagem e do Som (MIS), no Rio de Janeiro, um valioso depoimento que hoje integra a memória cultural brasileira. Conhecido mundialmente por obras como O Homem que Calculava, Malba Tahan compartilhou lembranças marcantes de sua trajetória literária, revelando episódios pouco conhecidos de sua carreira.
Entre os relatos registrados nessa entrevista histórica, destaca-se a história do livro Acordaram-me de Madrugada, uma obra cercada de curiosidades e circunstâncias singulares. A seguir, apresentamos a transcrição desse trecho do depoimento, preservando as palavras do autor e contribuindo para a divulgação de documentos fundamentais para pesquisadores, educadores, leitores e admiradores da obra de Malba Tahan.

Transcrição
Trecho 12 do Depoimento de Malba Tahan ao MIS – Museu da Imagem e do Som
Malba Tahan:
O Naumin, quer fazer outra pergunta?
Entrevistador Naumim Aizen:
Quando o senhor estudou no Colégio Pedro II, aconteceu alguma coisa interessante para contar pra gente?
Malba Tahan:
Para contar?
Entrevistador:
Como estudante do Pedro II.
Malba Tahan:
Bom, vou contar um episódio acontecido comigo, muito curioso. Eu era aluno do Eu era aluno do segundo ano, e o meu professor de geografia era diretor. O nosso professor de Geografia tinha mania que a gente decorasse todos os signos do zodíaco na ordem. Quem não sabia o ciclo do zodíaco, ele dava zero. Então todos tratavam de aprender os signos do zodíaco na ordem. Então nós inventávamos histórias que usavam os signos do zodíaco. Por exemplo, eu sei hoje, até hoje a ordem dos signos do zodíaco, o pessoal todo fica assombrado, como é que eu sei? É o seguinte, o carneiro montou no touro e foi fazer uma visita aos gêmeos que estavam doentes de câncer na casa do Leão. Aí encontrou a virgem que trazia uma balança. Nessa balança ela trazia um escorpião, então disse ao Capricórnio, ao Sagitário e o Capricórnio: Agora já pode tomar banho no aquário dos peixes. Então nós sabíamos aquelas coisas, o professor Joaquim era um homem muito bom, mas uma manhã, assim, umas 3 horas da madrugada, mais ou menos, eu estava dormindo quando senti que me sacudiam pelo ombro. No internato, 3 horas, 3 e meia. Eu acordei assim, era o diretor, ele estava todo encapotado, todo cheio e tal.
O diretor usava um pessinê com um cordãozinho que vinha por aqui até o colete dele achar aquilo impressionante. O diretor disse:
— Acorda, acorda! Acorda!
Eu tinha o apelido de capote.
— Acorda, capote! Acorda! Capote, acorda!
Eu? Deixa o diretor me acordar a essa hora para me castigar? O que será isso? Achei extraordinário!
— Acorda! Acorda!
Todo mundo dormia, só eu que estava sendo acordado. Todos os colegas dormiam. Então eu o que eu fiz?
— Pega o seu cobertor.
Meu cobertor é um cobertor de baeta vermelha, muito ordinário, coitado. Mas eu peguei e ele disse:
— Eu não quero que você sofra frio, então nós vamos lá para fora, eu vou lá para fora, se você espera um momento que eu vou acordar o cearense.
O cearense era um colega meu que era muito distinto, banco de honra em todas as matérias, rapaz de um valor extraordinário, disse, então não é castigo.
— Venhas, venham!
O cearense olhou para mim e disse
— Ele está maluco, eu não vou, o diretor está maluco. Vem-nos acordar nós 2 a essa hora.
— Venham, venham.
O cearense usava um cobertor bonito, só comprado no Parque Royal. O cobertor do cearense era bonito, o meu é que era pobre, era cobertor de baeta vermelha, e nós naquele tempo não usava pijama, era camisolão. O meu camisolão ia só até a canela, mais ou menos. O camisolão do cearense era bonito, tinha. bordados aqui, tinha uma coisa bonita. Mas ele disse:
— Venham, venham! Venham!
Nos chamou lá para fora do dormitório e nós fomos para a sala das pias. Sala onde tem as pias, onde o sujeito lava a cara de manhã.
— Venham!
— Eu vou fugir, ele está louco? A nós dois, só que ele veio nos acordar?
Chamou lá para fora do dormitório e disse:
— Eu estava em casa com a minha família, com a minha esposa, com o meu filho e me lembrei de vocês.
Se lembrou de nós então vindo se acordar essa hora da manhã, 3 e tanto da manhã. Se você voltou para os pro pra mim, disse
— Capote, você não ia sair?
Disse, não ia não pro diretor.
— Você é… me disseram que você não ia sair domingo, sábado você não vai sair.
Disse, eu não vou sair não, diretor.
— E o cearense também me disseram que o cearense não ia sair.
O cearense:
— É meu padrasto foi para Vitória, minha mãe também foi e a casa fechada não tem para onde ir, então vou ficar também.
— É só vocês dois que vão ficar aqui no colégio. Eu já dei saída geral pra todo mundo. Não há privados, não há nada, mas só vocês dois. Eu estava em casa, me lembro de vocês e eu disse, os outros os pais mostram. Mas pra esses quem tem que mostrar sou eu.
O cearense fizesse pra mim.
— Está louco? Quem tem que mostrar sou eu. Os outros pais mostram. Está louco.
— Venham! Venham! E enrola-se.
Um frio danado! Noite de maio, 18/05/1910, um frio danado! Descemos a escadaria, passamos pela sala de aulas, até um gato preto pulou assim, eu pensei para o seu Leandro, era um palpite, mas para o cearense, cearense é supersticioso, pulou um gato preto assim, que será esse? Chega lá na sala de diretoria, será que o diretor vai nos botar aqui de castigo, mas o cearense é um aluno exemplar? Era um aluno tão bom e eu me comovo quando falo do cearense. Era um colega tão bom que às vezes deixava o recreio da tarde pra ensinar aritmética pros colegas. Era extraordinário. Mas somos nós dois lá pra sala ele disse
— Abram a janela, abram a janela, a janela que dá pro campo de São Cristóvão.
E nós dois chegamos na janela. Só o diretor manda a gente acordar vai ficar aqui na janela, estupidamente. Nós estamos fartos desse Campo São Cristóvão, moramos aqui. O Campo São Cristóvão não tinha nada. Ao longe, ouviu-se o latido de um cachorro. Como diz o poeta, “o cachorro poluiu o silêncio”. É muito longe. Lá no Asilo Santana do outro lado não se via nada, nada. Só que o diretor acorda… não via bonde, não havia nada. O diretor nos acorda, o diretor estava acertando o gás que naquele não havia luz elétrica. O diretor está levantando o bico de gás. Afinal, ele veio para nós. Nós estávamos na janela. Ele veio, ficou entre nós 2 e abraçou a mim e ao cearense. Abraçou e disse,
— Vocês estão olhando para a Terra. Não olhem para a Terra, olhem para o céu.
Diretora, quando eu olhei para o céu, eu tive uma exclamação.
— Oh, diretor! Que maravilha!
Era o cometa de Halley. Era o cometa de Halley. Esse homem extraordinário, esse homem extraordinário, sai da casa dele de madrugada, toma o último bonde do horário, anda a pé quase que uma hora para chegar ao internato, para acordar dois meninos para ver o cometa de Halley, que eram os únicos que iam ficar, que os outros iam sair e os pais mostravam, os pais mostravam e nós não tínhamos quem é que ia mostrar? Nós íamos perder o cometa de Halley e o cometa depois passava o sol e ele deixava, se afastava, não era mais visto. Então, aquela noite era a última que o cometa de Halley podia ser visto.
Entrevistador:
O nome desse diretor, por favor.
Malba Tahan:
Augusto de Araújo Lima, Augusto José de Araújo Lima, está citado aqui.
Entrevistador:
Diretor de grande profissão.
Malba Tahan:
Então ele esteve ali conversando conosco. Conversou, explicou aquelas considerações todas, olha ali peixes ali tal, coisa e tal, olha o cometa, a posição dele, a cauda vinha assim e tal, e ficou ali contando coisas de outros cometas, cometa Donatti, que só volta daqui a mil e tantos anos, e o descoberto foi o italiano, e um cearense disse
— E o Halley está sendo visto lá no Ceará?
Então o diretor explicou que lá no Ceará o Halley está sendo visto por questão de latitude, ele está sendo visto mais alto, mais baixo que nós não entendemos, não entendemos aquela história, mas o cometa está sendo visto no Ceará e isso confortou muitos cearenses, sabia que lá no norte estavam vendo o cometa de Halley e depois quando começou a clarear o dia, o diretor disse
— Agora vocês vão dormir, vão o sol está se levantando às 5:15, mas eu disse para bater o sino só às 6 horas. Vocês vão aproveitar esse resto para dormir um bocadinho.
Aí então, o cearense tomou da palavra.
— Diretor, em primeiro lugar, eu quero pedir perdão.
— Mas perdão, por quê?
— Quando o senhor foi me chamar, eu fiz um juízo no mal do senhor. Julguei que o senhor estava meio perturbado. Mas agora o senhor substituiu o meu pai. E substituiu o pai do Capote,
Porque o meu pai já era falecido em 1910
— E o substituiu também o pai do Capote. De modo que diretor que eu quero lhe pedir perdão. Eu quero lhe beijar a mão.
Beijou a mão do diretor. O diretor então disse:
— Capote, você me comoveu. Eu estou comovido. Como é que um menino comove um velho? Não é possível, cearense? Cearense, você me comoveu, cearense. Como é que é possível um menino comover um velho? Eu estou comovido porque me lembrei do meu pai e me lembrei de minha mãe.
Então eles… Eu não disse nada. Eu só dei um abraço no diretor, o que o meu cobertor permitia, dei um abraço. E disse,
— Obrigado, diretor
E saí. Saímos na disparada para o dormitório, caímos na cama.
– Fim do áudio –
Este depoimento de Malba Tahan revela uma profunda lição sobre educação, sensibilidade e formação humana. Ao recordar a madrugada em que o diretor Augusto José de Araújo Lima atravessou a cidade apenas para mostrar o Cometa de Halley a dois alunos que não teriam a oportunidade de vê-lo com suas famílias, o escritor presta uma emocionante homenagem a um educador que compreendia que ensinar vai muito além da sala de aula.
Mais de sessenta anos depois do acontecimento e décadas após a entrevista, a emoção com que Malba Tahan revive esse episódio mostra a força que um verdadeiro mestre pode exercer na formação de seus alunos.
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